Depemoquimabe: primeiro imunobiológico semestral aprovado para asma grave
Nos últimos 10 anos, houve um crescimento vertiginoso tanto em conhecimento quanto disponibilidade de tratamento com imunobiológicos para asma grave, com surgimento de novos alvos terapêuticos e medicações diversas para os diferentes fenótipos de doença. No entanto, a maioria das medicações são mensais, a cada duas semanas ou no máximo a cada 2 meses. A ideia de espaçar cada vez mais as doses de medicamentos sem reduzir sua eficácia pode, em alguns casos, melhorar adesão, reduzindo atrasos de doses; fardo de tratamento e também se adequar à preferência de pacientes. O depemoquimabe
O estudo OPTIMAL foi um estudo de “prova de conceito” que tentou avaliar a possibilidade de desmame das terapias anti-IL5, tentando espaçar conforme número de exacerbações, eosinófilos em sangue periférico e função pulmonar (medida por VEF1), que demonstrou que em pacientes cuidadosamente selecionados poderia ser feito esse desmame, mas com ressalvas importantes: o espaço amostral do estudo foi pequeno e o número de pacientes que exacerbou no grupo intervenção foi numericamente o dobro dos pacientes que estavam no grupo controle. Portanto, embora o estudo demonstre que o conceito é possível, ele não estabelece que espaçar rotineiramente os anti-IL-5 atualmente disponíveis seja uma estratégia segura ou equivalente à posologia convencional.
O depemoquimabe é um anticorpo monoclonal humanizado IgG1k anti-IL5, semelhante ao Mepolizumabe, em que houveram duas alterações fundamentais para diferenciar a medicação: mudança na porção Fab com objetivo de aumentar sua afinidade ao IL-5 e a realização de três alterações na porção Fc (YTE) que levam ao aumento da afinidade pelo receptor neonatal, FcRn, especialmente em meio com pH ácido, e essa é a parte mais elegante da farmacodinâmica da medicação. O IgG circulante geralmente sofre endocitose e, dentro do endossomo, o pH é em torno de 6; não ligado ao FcRn, a tendência é o IgG ir ao lisossomo e sofrer proteólise, no entanto, ligando-se ao FcRn, sofre reciclagem para a membrana, retornando a um ambiente mais básico, desprende-se o IgG que retorna à circulação, como um mecanismo de salvamento da IgG.
Nos estudos de fase I em humanos, a meia-vida terminal observada foi de aproximadamente 38 a 53 dias, e uma única administração produziu supressão dos eosinófilos que permaneceu evidente por seis meses nas doses mais elevadas. Dados pré-clínicos em primatas mostraram retorno a 50% da supressão eosinofílica máxima por volta do dia 169 com depemoquimabe, comparado ao dia 29 com mepolizumabe. Esses dados pré-clínicos, associados à farmacocinética e farmacodinâmica observadas em humanos, deram suporte ao desenvolvimento de um esquema de administração a cada 26 semanas. Os dois principais estudos fase III publicados no New England Journal of Medicine, SWIFT-1 e SWIFT-2, com aplicações nas doses de 100 mg SC nas semanas 0 e 26, em pacientes com asma grave eosinofílica (300 ou mais nos 12 meses prévios ou pelo menos 150 no screening), com exacerbações apesar de dose média a alta de corticoide inalatório, demonstraram o efeito desejado de redução no número de exacerbações. Além disso, os estudos ANCHOR-1 e ANCHOR-2, utilizando a mesma dose, estudaram o efeito da medicação nos pacientes com rinossinusite crônica com polipose nasal e houve melhora dos sintomas associados (avaliados por Nasal Polyp Score e Nasal obstruction Score). Esses resultados demonstram eficácia do medicamento também na CRSwNP, embora a indicação regulatória deva ser considerada de acordo com a aprovação vigente em cada país.
Com a medicação provando-se eficiente, surgiu uma nova pergunta: meu paciente com mepolizumabe ou benralizumabe que está controlado, posso trocar pela medicação semestral? O estudo NIMBLE procurou responder essa questão, foi um estudo de não-inferioridade, incluiu 1687 pacientes utilizando Mepolizumabe ou Benralizumabe e o detalhe mais importante está nos subgrupos pré-especificados por biológico prévio. Quem trocou a partir do mepolizumabe teve exacerbações idênticas às de quem o manteve (0,48 vs 0,48; RR 0,99; IC95% 0,78–1,26). Já quem trocou a partir do benralizumabe exacerbou mais do que quem o manteve (0,67 vs 0,48; RR 1,38; IC95% 1,09–1,75). Esse achado deve ser interpretado com cautela, uma vez que se trata de uma análise de subgrupo e não do desfecho primário do estudo. Uma hipótese plausível é que o benralizumabe, ao depletar eosinófilos por citotoxicidade celular dependente de anticorpo, controle uma fração de exacerbações que o bloqueio da IL-5 solúvel não alcança. A leitura correta não é que os biológicos mensais sejam superiores, e sim que a troca de um paciente bem controlado, especialmente a partir do benralizumabe, não tem respaldo formal e deve ser individualizada, ponderando preferência, adesão e fenótipo.
O programa clínico segue para outras doenças eosinofílicas: os estudos de fase 3 OCEAN, na granulomatose eosinofílica com poliangeíte, e DESTINY, na síndrome hipereosinofílica, estão em andamento, assim como ENDURA-1/2 e VIGILANT, na DPOC com inflamação tipo 2. O principal diferencial do depemoquimabe, portanto, não parece ser a criação de um novo alvo terapêutico, mas a engenharia farmacológica de um alvo já estabelecido. O fato de ser semestral tem potencial em aumentar adesão, é uma medicação capaz de melhorar sintomas em rinossinusite crônica com polipose nasal e diminui exacerbações na asma, tornando-se mais uma opção interessante no tratamento da asma grave a ser incorporada cada vez mais nos próximos meses.
Homero Rodrigues dos Passos, pneumologista pelo HCFMUSP e especialista em Doenças de Vias Aéreas pela mesma instituição.

Referências
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