Brensocatibe: uma nova perspectiva no tratamento da bronquiectasia não-FC
Enquanto que nos últimos anos a evolução dos pacientes com Fibrose Cística mudou drasticamente com a introdução dos moduladores de CFTR, o modelo de tratamento para pacientes com bronquiectasia não-FC com objetivo de reduzir exacerbações permaneceu semelhante: técnicas de remoção de secreção, macrolídeo (Azitromicina, principalmente), antibiótico inalatório e tentativa de erradicação de Pseudomonas aeruginosa. Muito da dificuldade de encontrar um tratamento para bronquiectasias não-FC se dá pela heterogeneidade da doença (tanto etiológica quanto fenotípica) quanto pela complexidade do processo fisiopatológico – conforme o modelo de Cole, temos um círculo vicioso de alteração do clearance mucociliar, retenção de muco, infecção persistente, inflamação, que através de proteases derivadas de neutrófilos, leva à destruição e dilatação da via aérea e o processo se auto alimenta, ocorrendo mais como um “vórtex vicioso”.
Considerando a importância das proteases neutrofílicas no processo inflamatório das bronquiectasias, foi desenvolvido um inibidor da dipeptidil-peptidase-1 (DPP-1) chamado de brensocatibe, que atua reduzindo a atuação da elastase neutrofílica, proteinase-3 e catepsina G. A DPP-1 ativa essas proteases dentro dos neutrófilos ainda a nível de medula óssea, reduzindo elastase neutrofílica ativa no pulmão, dano tecidual e exacerbações. O WILLOW trial (estudo fase 2) já havia demonstrado boa tolerabilidade com redução no número de exacerbações e recentemente o ASPEN trial (fase 3) confirmou redução da taxa anual de exacerbações em relação a placebo e aparente efeito dose-dependente, em que 25 mg foi superior a 10 mg em relação a menor declínio de função pulmonar. A principal preocupação é com o surgimento da hiperqueratose e seu uso deve ser evitado em pacientes com síndrome de Papillon-Lefévre.
Os resultados são animadores pois até então não existia uma medicação específica para bronquiectasias não-FC que se demonstrou eficaz em reduzir exacerbações, tornando-se uma potencial intervenção terapêutica para indivíduos exacerbadores, refratários ou não. A FDA aprovou o uso da medicação em agosto/2025 e no Brasil, até o momento atual, não tem aprovação da ANVISA para uso da medicação. No entanto, é relevante que clínicos e pneumologistas saibam não somente da existência da medicação, como também seu potencial de reduzir exacerbações, visto que existe possibilidade de entrar a medicação no mercado brasileiro nos próximos anos.
Referências Bibliográficas:
- Miguel Angel Martinez Garcia. The doubled edge sword of neutrophilic inflammation in bronchiectasis. European Respiratory Journal 2015 46(4): 898-900
- Flume PA, Chalmers JD, Olivier KN. Advances in bronchiectasis: endotyping, genetics, microbiome, and disease heterogeneity. Lancet. 2018 Sep 8;392(10150):880-890. doi: 10.1016/S0140-6736(18)31767-7. PMID: 30215383; PMCID: PMC6173801.
- Chalmers JD et al. Phase 2 trial of the DPP-1 inhibitor brensocatib in bronchiectasis. New England Journal of Medicine. 2020;383:2127–2137
- Chalmers JD et al. Phase 3 trial of the DPP-1 inhibitor brensocatib in bronchiectasis. New England Journal of Medicine. 2025
Homero Rodrigues dos Passos, pneumologista pelo HCFMUSP, Fellow de Doenças de Vias Aéreas.




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